Um Natal que eu nunca vou esquecer — e olha que a minha memória é bem fraca —, mas esse ano de 2020 foi realmente único: para mim, para você, para todo mundo, por motivos de pandemia e caos geral da humanidade. Foi o primeiro — e espero que o último — que não pudemos passar junto com a família. Quem me conhece sabe que eu tenho verdadeira paixão por essa época do ano: por árvores que imitam pinheiros, luzinhas cafonas, brilhos, playlists de músicas antigas, corais, renas e tudo o mais que eu puder colocar no pacote.
Eu amo tão verdadeiramente o Natal que escondo de mim mesma todos os enfeites para ter aquela surpresa boa de reencontrá-los de novo no tão esperado dia de montar a árvore. Eu me esforço para esquecê-los no fundo do armário e sentir a alegria de poder dizer de novo:
“— Lembra desse aqui? A Olívia que fez na escola. Olha esse que compramos na viagem para a Alemanha. Esse eu comprei na loja de 1,99 da Teodoro Sampaio...”
A cada ano tento aumentar a coleção e fazer caber tudo pendurado no pinheirinho artificial (sim, foi-se o tempo dos pinheiros naturais que comprávamos na França). E, por falar em França, foi lá mesmo que passamos o Natal inesquecível: com um lindo e perfumado pinheiro de verdade, lareira acesa e até neve. Incrível, né? Parece Natal de filme da Sessão da Tarde, com direito a playlist natalina e meias quentinhas nos pés e penduradas perto da chaminé, junto com a cartinha para o Papai Noel. Acontece que, nesse dia, eu me concentrei em fingir que passaríamos o Natal só nós três (papai, mamãe e filhinha) do outro lado do oceano — por escolha, e não por imposição.
A ceia foi o grande acontecimento que ocupou meus dias de véspera. Foi preciso muito bom humor e pensamento positivo para encarar aquela situação tão inesperada de forma leve e até alegre. Compramos um pinheiro que enfiamos — não sei como — no nosso velho, velhíssimo carro amarelo; colocamos alguns poucos enfeites que tínhamos levado na mala de mudança dois anos antes e começamos a fantasiar qual seria o jantar de Natal. Como tudo era impossível, tudo também era possível. Éramos apenas três, mas éramos três mesmo assim. E um desses três tinha apenas sete anos e queria muito estar com os avós, primos, tios, mangas e pitangas do Brasil — assim como os dois adultos, que precisaram acreditar e persuadir a pequena de que a pandemia era uma coisa passageira e que, quando o presidente Macron deixasse a gente voar de avião, iríamos para casa ver todo mundo.
Ah! Se Macron soubesse que estava tudo nas mãos dele para a pequena Olívia... Então fiquei cozinhando a ceia na minha imaginação por dias a fio, pensando nos acompanhamentos, no que seria possível cozinhar para tão poucos, mas com aquela sensação de “grande assado que sai do forno e enche a mesa”, daqueles que precisam ser cuidados um dia inteiro, que se destrincham na mesa enquanto se trocam pratos de um lado para o outro.
Uma paleta de cordeiro me pareceu menor que um pernil ou um peru (que, mesmo não gostando muito, adoro assistir à sua aparição na refeição mais esperada do ano). No nosso vilarejo havia um produtor de vitela, porco e cordeiro orgânicos, e ali onde morávamos era uma das regiões mais bem reputadas pela qualidade dessa carne — o Aveyron. Guardo com carinho o cartão de visitas do produtor, que, no verso, trazia uma agenda das vendas semanais no mercado. Assim, sabíamos com antecedência em que dias comeríamos porco, belos carrés ou compraríamos pedaços de jovem bovino — como ela intitulava — para uma blanquette.
Encomendei minha paleta semanas antes para não correr nenhum risco. Comprei as mais doces e belas cenouras que outro feirante costumava ofertar, tâmaras do tipo Medjool da Jordânia, céleri-rave (aipo-rábano) para uma rémoulade — uma salada feita com a raiz cortada em finas tiras, temperada com maionese, mostarda Dijon, suco de limão-siciliano, sal e pimenta-do-reino —; couscous e mais cenouras para fazer o tradicional bolo Bûche de Noël (bûche significa tronco, e o bolo tem o objetivo de parecer um tronco de árvore lindamente decorado no final).
Na véspera da véspera, o cordeiro já estava marinando e ocupando metade da pequena geladeira, junto com os outros ingredientes, algumas garrafas de vinho e outras de suco de maçã. Besuntado em azeite, alho, sal, pimenta-do-reino e ras el hanout (uma combinação de especiarias de origem magrebina que contém coentro, açafrão, cominho, pimenta-caiena, feno-grego, erva-doce, alho em pó, cardamomo, canela, gengibre, cravo-da-índia, entre muitas outras possibilidades), uma cerveja dos ingleses cervejeiros lá da nossa pequena cidade e, claro, tempo. Depois acrescentei umas folhas de louro, as cenouras descascadas e cortadas ao meio no sentido do comprimento, as tâmaras sem caroço, muitas rodelas de cebola e algumas lágrimas, que sempre acompanham momentos assim.
Era a primeira vez que eu fazia a ceia de Natal. Eu sempre tinha sonhado com esse dia — até ele chegar. Foram anos acompanhando de perto a ceia sendo feita na minha casa: perus sendo assados no pequeno forno ou na padaria de Seu Biu; depois, as mudanças repentinas de cardápio para moquecas, lasanhas ou peixes assados, tentando fazer um Natal mais tropical.
Então, eu saí de casa, fui morar em São Paulo, mas ainda passava os natais por lá. Depois, de pouquinho em pouquinho, comecei a passá-los com a família do meu marido. Lá, a ceia também é um acontecimento na cozinha, que fica em polvorosa dias antes e depois da grande noite, com coquetel de camarão, peru, tender, muitas saladas e sobremesas. Sempre assisto de perto à dança das panelas que minha sogra conduz e até colaborei algumas vezes de forma discreta e imperceptível, preservando todo o respeito por ela, que é uma das melhores cozinheiras que eu conheço.
Então, 2020 chegou e trouxe com ele uma quantidade de primeiras vezes nunca antes vista. O Natal estava ali: nós, na nossa pequena casa, com nosso pequeno carro amarelo muito, muito velho (tão velho que virou maionese pouco tempo depois); com nossa cachorra maluca; nosso frio imenso no banheiro sem isolamento; dormindo de gorro e luvas sob o romântico — e incapaz — fogo da lareira de aquecer suficientemente nós três.
Arranquei forças de onde não tinha para fazer aquele Natal parecer normal. Toda a família mandou presentes para Olívia pelo correio; nos vestimos com roupas bonitas, colocamos músicas natalinas para tocar, acendemos as luzinhas da árvore e esperamos o cordeiro assar até desmanchar. Enquanto isso, eu, inocentemente, tentei fazer um bolo de cenoura com cobertura de chocolate na pele de uma Bûche de Noël.
O resultado surpreendeu por sua imensa feiura, mas provou que beleza é apenas um atributo de um bom prato. Comemos bem, bebemos bem e recebemos até uma visita inesperada da vizinha da casa ao lado, com um pote de foie gras (seguindo a tradição natalina francesa), para compartilhar conosco na nossa pequena casinha.
Passamos o Natal sozinhos, juntos e até com uma amiga. Foi diferente, foi especial à sua maneira, foi inesquecível — mas espero que não aconteça de novo.
Então, essa semana, eu resolvi refazer a receita do cordeiro — e deu tudo certo como da primeira vez, apesar de ter me visto reclamando que as cenouras não eram as mesmas do Jérémy, nem o cordeiro da Marie, e que eu não tinha ras el hanout, que achava que estava ali na despensa, mas tinha ficado para trás na mudança. Dessa vez, para compensar a imensa lacuna que o céleri-rave faz na minha vida, fiz uma coleslaw de repolho-roxo com maçã verde, um couscous com nozes picadas, além de pimentões em conserva.
Não encarei fazer uma Bûche de Noël sem ser Noël e me lancei numa sobremesa simples e reconfortante: o crumble de maçã com crème anglaise. Os vinhos foram muitos, para acompanhar os amigos queridos e as risadas altas que preencheram a casa toda — pena que ainda não era Natal.
Version française
Un agneau de Noël
Un Noël que je n’oublierai jamais — et pourtant, ma mémoire est plutôt mauvaise. Mais cette année 2020 a vraiment été unique : pour moi, pour toi, pour tout le monde, à cause de la pandémie et du chaos général de l’humanité. C’était le premier — et j’espère bien le dernier — que nous n’avons pas pu passer en famille. Ceux qui me connaissent savent à quel point j’ai une véritable passion pour cette période de l’année : les sapins artificiels, les guirlandes lumineuses un peu kitsch, les paillettes, les vieilles chansons de Noël, les chœurs, les rennes… tout ce que je peux mettre dans le paquet.
J’aime tellement Noël que je cache moi-même toutes les décorations pour avoir le plaisir de les redécouvrir le jour venu, quand on monte le sapin. J’essaie de les oublier au fond du placard pour ressentir à nouveau la joie de dire :
« — Tu te souviens de celui-ci ? C’est Olivia qui l’a fait à l’école. Et celui-là, on l’a acheté pendant notre voyage en Allemagne. Celui-ci vient du magasin à 1,99 de la rue Teodoro Sampaio... »
Chaque année, j’essaie d’agrandir la collection et de tout faire tenir sur notre petit sapin artificiel (oui, le temps des sapins naturels achetés en France est révolu). Et justement, c’est en France que nous avons passé ce Noël inoubliable : avec un vrai sapin, beau et parfumé, la cheminée allumée et même de la neige. Incroyable, non ? On se serait cru dans un film de Noël de l’après-midi, avec playlist, chaussettes chaudes aux pieds et accrochées près du feu, et la lettre au Père Noël. Ce jour-là, je me suis concentrée à faire semblant que nous passions Noël à trois — papa, maman et la petite fille — de l’autre côté de l’océan, par choix et non par contrainte.
Le dîner fut le grand événement qui occupa mes jours de veille. Il a fallu beaucoup d’humour et de pensées positives pour aborder cette situation si inattendue avec légèreté et même un peu de joie. Nous avons acheté un sapin (je ne sais toujours pas comment nous avons réussi à le faire rentrer dans notre vieille voiture jaune), accroché les quelques décorations que nous avions emportées dans nos valises deux ans plus tôt, et commencé à rêver de notre repas de Noël. Comme tout était impossible, tout devenait possible. Nous n’étions que trois, mais trois tout de même. Et l’une d’entre nous, âgée de sept ans à peine, voulait tant être avec ses grands-parents, cousins, oncles, tantes, mangues et pitangas du Brésil — tout comme nous, les deux adultes, qui devions croire et convaincre la petite que la pandémie passerait, et que lorsque le président Macron nous laisserait reprendre l’avion, nous rentrerions à la maison voir tout le monde.
Ah ! Si Macron avait su que tout dépendait de lui pour la petite Olivia... Alors j’ai commencé à cuisiner le dîner dans mon imagination, jour après jour, pensant aux accompagnements, à ce qu’il serait possible de préparer pour si peu de monde, mais avec cette impression de grand rôti qui sort du four, embaume la maison, et se découpe lentement au milieu des rires et des assiettes qui passent de main en main.
Une épaule d’agneau me paraissait plus raisonnable qu’un gigot ou une dinde (que je n’aime pas vraiment manger, mais dont j’adore l’apparition sur la table du réveillon). Dans notre petit village, il y avait un producteur de veau, de porc et d’agneau bio — et la région où nous vivions, l’Aveyron, était réputée pour la qualité de ses viandes. Je garde précieusement sa carte de visite : au verso, un petit calendrier des marchés hebdomadaires, ce qui nous permettait de savoir à l’avance quels jours nous mangerions du porc, de beaux carrés de côtes ou des morceaux de jeune bovin — comme elle les appelait — pour une blanquette.
J’avais commandé mon épaule d’agneau plusieurs semaines à l’avance pour ne prendre aucun risque. J’ai acheté les plus belles carottes du marché, des dattes Medjool de Jordanie, du céleri-rave pour une rémoulade — une salade faite avec la racine râpée finement, assaisonnée de mayonnaise, moutarde de Dijon, jus de citron, sel et poivre —, du couscous et encore des carottes pour préparer la traditionnelle bûche de Noël.
La veille de la veille, l’agneau marinait déjà, occupant la moitié du petit réfrigérateur avec les autres ingrédients, quelques bouteilles de vin et de jus de pomme. Enduit d’huile d’olive, d’ail, de sel, de poivre et de ras el hanout (mélange d’épices maghrébin contenant coriandre, safran, cumin, piment de Cayenne, fenugrec, anis, ail en poudre, cardamome, cannelle, gingembre, clou de girofle, entre autres merveilles), un peu de bière des brasseurs anglais de notre petite ville, et surtout du temps. Puis j’ai ajouté des feuilles de laurier, des carottes coupées dans la longueur, des dattes dénoyautées, de fines rondelles d’oignon et quelques larmes — qui vont toujours de pair avec ces moments-là.
C’était la première fois que je préparais le repas de Noël. J’en avais rêvé si souvent... pendant toutes ces années à regarder, dans la maison de mes parents, les dindes rôtir dans le petit four ou chez le boulanger, les menus soudain transformés en moquecas, lasagnes ou poissons grillés, pour un Noël plus tropical.
Puis j’ai quitté la maison, suis partie vivre à São Paulo, tout en continuant à passer Noël en famille, jusqu’à ce que, petit à petit, je commence à le fêter avec la famille de mon mari. Là aussi, le réveillon est un grand événement culinaire : la cuisine s’agite des jours durant, avant et après la grande nuit, avec cocktail de crevettes, dinde, jambon glacé, salades et desserts. J’ai toujours observé de près la danse des casseroles que ma belle-mère dirige, et j’y ai même participé, discrètement — respectant celle qui est, sans doute, l’une des meilleures cuisinières que je connaisse.
Et puis 2020 est arrivé, apportant son lot de premières fois. Noël était là : nous, dans notre petite maison, avec notre vieille voiture jaune — si vieille qu’elle a fini à la casse peu après —, notre chienne folle, notre salle de bain glaciale sans isolation, dormant avec bonnet et gants sous le feu romantique — et impuissant — de la cheminée.
J’ai trouvé de la force là où il n’y en avait plus pour rendre ce Noël un peu normal. Toute la famille a envoyé des cadeaux pour Olivia par la poste, nous avons mis nos plus beaux habits, fait jouer des musiques de Noël, allumé les guirlandes et attendu que l’agneau cuise doucement jusqu’à se détacher de l’os. Pendant ce temps, j’ai naïvement essayé de faire un gâteau à la carotte avec glaçage au chocolat, déguisé en bûche de Noël. Le résultat fut d’une laideur surprenante, mais délicieux — la preuve que la beauté n’est pas un ingrédient indispensable.
Nous avons bien mangé, bien bu, et même reçu la visite inattendue de notre voisine, venue partager avec nous un pot de foie gras, selon la tradition française. Nous avons passé Noël seuls, ensemble, et même avec une amie. C’était différent, spécial à sa manière, inoubliable — mais j’espère que cela ne se reproduira pas.
Alors, cette semaine, j’ai décidé de refaire la recette de l’agneau. Tout s’est bien passé, comme la première fois, même si je me suis surprise à râler : les carottes n’étaient pas celles de Jérémy, ni l’agneau celui de Marie, et je n’avais plus de ras el hanout, resté dans l’ancien placard lors du déménagement. Cette fois, pour combler le manque cruel de céleri-rave, j’ai préparé une coleslaw de chou rouge à la pomme verte, un couscous aux noix concassées et quelques poivrons marinés.
Je n’ai pas eu le courage de faire une bûche de Noël hors saison, et je me suis lancée dans un dessert simple et réconfortant : un crumble aux pommes avec crème anglaise. Les vins furent nombreux, les rires aussi, emplissant toute la maison. Dommage seulement que ce ne fût pas encore Noël.
English version
A Christmas Lamb
A Christmas I’ll never forget — and that’s saying something, since my memory is usually quite poor. But the year 2020 was truly unique: for me, for you, for everyone, because of the pandemic and the general chaos of humanity. It was the first — and I hope the last — Christmas we couldn’t spend with our family. Those who know me are well aware of my true passion for this time of year: for artificial pine trees, tacky lights, glitter, old holiday playlists, choirs, reindeer, and anything else I can squeeze into the package.
I love Christmas so deeply that I hide all the decorations from myself just to have the joy of rediscovering them again on the long-awaited day when we put up the tree. I make a real effort to forget them at the back of the closet, so I can feel that thrill of saying once more,
“— Remember this one? Olivia made it at school. Look, this one we bought on our trip to Germany. And this one, I got from that 1.99 store on Teodoro Sampaio Street...”
Every year I try to add to the collection and somehow make everything fit on our little artificial tree (yes, the days of real pine trees we used to buy in France are long gone). And speaking of France, it was there that we spent that unforgettable Christmas — with a beautiful, fragrant real tree, a crackling fireplace, and even snow. Amazing, right? It was like a Christmas movie from a cozy afternoon TV marathon: a holiday playlist, warm socks on our feet and hanging by the fire, and a letter for Santa Claus. That day, I tried to pretend we were spending Christmas, just the three of us — dad, mom, and daughter — on the other side of the ocean by choice, not by force.
The dinner was the great event that filled my days before Christmas Eve. It took a lot of humor and positive thinking to face that unexpected situation with lightness and even joy. We bought a tree — I still don’t know how we managed to fit it into our old, very old yellow car —, hung the few ornaments we had brought with us when we moved two years earlier, and started to imagine what our Christmas dinner would be. Since everything was impossible, everything was also possible. We were only three, but three nonetheless. And one of us, just seven years old, desperately wanted to be with her grandparents, cousins, uncles, and mangoes and pitangas back in Brazil — just like the two adults, who had to believe, and convince the little one, that the pandemic was temporary and that, when President Macron let us fly again, we’d go home to see everyone.
Ah! If only Macron had known that everything depended on him for little Olivia…
So I spent days cooking our Christmas dinner in my imagination — thinking about side dishes, about what could be made for so few people yet still carry that “big roast fresh from the oven, filling the house with warmth” feeling. One of those dishes that takes a whole day of care and patience, that gets carved at the table while plates and laughter pass from one hand to another.
A lamb shoulder seemed smaller than a leg or a turkey (which I don’t even like much, but still love to see making its grand entrance at Christmas dinner). In our little village there was a farmer who sold organic veal, pork, and lamb, and the region where we lived — Aveyron — was one of the most renowned for the quality of its meat. I still keep his business card; on the back, there was a little calendar with market dates, so we always knew in advance which days we’d eat pork, lovely racks of ribs, or cuts of young beef — as she called them — for a blanquette.
I ordered my lamb shoulder weeks in advance, just to be safe. I bought the sweetest, prettiest carrots from another market vendor, Medjool dates from Jordan, celeri-rave (celeriac) for a rémoulade — a salad made with the root cut into thin strips, dressed with mayonnaise, Dijon mustard, lemon juice, salt, and black pepper —; couscous and more carrots to make the traditional Bûche de Noël (which means “yule log,” a cake made to look like a decorated tree trunk).
By the day before Christmas Eve, the lamb was already marinating, taking up half of our tiny fridge alongside the other ingredients, a few bottles of wine, and some apple juice. It was coated in olive oil, garlic, salt, black pepper, and ras el hanout — a North African spice blend containing coriander, saffron, cumin, cayenne pepper, fenugreek, fennel, garlic powder, cardamom, cinnamon, ginger, cloves, and more — plus a bit of beer from the English brewers in our town, and, of course, time. Then I added a few bay leaves, peeled and halved carrots, pitted dates, lots of onion rings, and a few tears, which always come with moments like these.
It was my first time cooking Christmas dinner. I had always dreamed of that day — until it finally arrived. For years I’d watched the Christmas meal being prepared at home: turkeys roasted in our little oven or at Mr. Biu’s bakery, sudden menu changes to moquecas, lasagnas, or roasted fish, in an attempt to make Christmas more tropical.
Then I moved to São Paulo but kept going back home for Christmas — until, little by little, I began spending it with my husband’s family. There too, Christmas dinner is a grand production: the kitchen buzzing for days before and after the big night, with shrimp cocktails, turkey, glazed ham, many salads, and desserts. I’ve always watched closely the dance of pots and pans led by my mother-in-law — and even helped discreetly, imperceptibly — out of deep respect for her, one of the best cooks I know.
Then 2020 came, bringing a wave of “first times” like never before. Christmas was there, and we were in our small house, with our tiny, very, very old yellow car (so old it ended up at the junkyard soon after), our crazy dog, our freezing bathroom without insulation, sleeping with hats and gloves under the romantic — and utterly useless — warmth of the fireplace that couldn’t really heat the three of us.
I pulled strength from nowhere to make that Christmas feel normal. The whole family sent gifts for Olivia by mail; we dressed nicely, played Christmas music, turned on the fairy lights, and waited for the lamb to cook until it fell apart. Meanwhile, I innocently tried to make a carrot cake with chocolate frosting disguised as a Bûche de Noël. The result was astonishingly ugly — but delicious — proving that beauty is just one of many qualities a good dish can have.
We ate well, drank well, and even received an unexpected visit from our next-door neighbor, who came bearing a jar of foie gras (as French Christmas tradition dictates) to share with us in our little house. We spent Christmas alone, together, and even with a friend. It was different, special in its own way, unforgettable — but I hope it never happens again.
This week, I decided to remake that lamb recipe — and it turned out just as well as the first time, even though I caught myself complaining that the carrots weren’t Jérémy’s, nor the lamb Marie’s, and that I had no ras el hanout after all — it must have been left behind during the move. This time, to fill the gaping hole left by the missing celeri-rave, I made a red cabbage and green apple coleslaw, couscous with chopped walnuts, and some pickled peppers.
I didn’t dare make a Bûche de Noël out of season and instead went for a simple, comforting dessert: apple crumble with crème anglaise. There was plenty of wine, dear friends, and loud laughter filling the whole house — a shame it wasn’t quite Christmas yet.








Que texto lindo🥹 Me trouxe memórias de 2020 e desse natal diferente…