Mamão, bule, rosas vermelhas, uma xícara de café com leite. Uma natureza morta no pano de prato. Terça-feira. Na segunda era uma cesta derrubando morangos, peras, maçãs, rodeada por borboletas e rendas. Tinha dia que era bule sorridente com torta saindo quentinha do forno. Papagaio segurando flor. Uma vaca com vestido de babados.
A porta do forno anunciava o começo de uma nova semana que se embaralhava conforme o caos na cozinha crescia. O desejo era de manter em ordem, um pano para cada dia da semana, sempre colocado no começo do dia. O sonho era de uma cozinha limpa de comercial de tv com o pano-calendário esperando um novo dia começar, mas os dias se misturavam, a cozinha nunca parava, os panos se somavam conforme as horas passavam. Helena sonhava com uma casa bonita, cheirosa e arrumada com roupa de filtro combinando com capa de fogão e bujão.
O que eu via eram panos de prato queimados nas beiras, dias sem fim, nem começo e desejos não realizados. Como uma síntese daquele tempo. Tempo de Helena dando voltas em torno de si mesma, das panelas, das feridas. Tentando dar ordem as coisas e as suas frustrações. E quando o caos já estava completamente instalado, um novo conjunto de panos com os dias da semana aparecia e a esperança se renovava.



